Violência e homicídios contra imigrantes africanos e haitianos no Brasil: uma naturalização dos crimes

É assustador o aumento do homicídio contra estrangeiros africanos no Brasil, a isso soma-se os crimes de xenofobia, agressões físicas e discriminação. Segundo um estudo publicado pelo HuffPostBrasil em 2015: “a chegada de refugiados e imigrantes faz o racismo e a xenofobia crescerem mais de 633 % no país, mas nem 1% dos casos chegam à justiça”. O aumento desses números deve-se ao racismo que caracteriza o país, onde o preconceito parece ser naturalizado. Inclusive, a própria população afro-brasileira também sofre com os mesmos casos. Para isso, é necessário fazer ações mobilizadoras para combater a fim de dar visibilidade aos crimes de violência e xenofobia cometidos contra a comunidade imigrante residente no Brasil— também alertar as autoridades a tomarem medidas protetivas que garantem a segurança total de todos sem distinção. A participação de todos é imprescindível, porque uma parte da sociedade tem fronteiras preconceituosas mentais — portanto num país composto por descendentes de imigrantes.
Esta matéria não é exaustiva — mas, é um registro de alguns casos de crimes cometidos contra africanos e haitianos.

 

Na segunda quinzena de outubro, um aluno camaronês do curso de Agronomia da Universidade Federal de São Carlos, Julius, 29 anos, foi encontrado morto em Araras, interior de São Paulo.
No dia 9 de outubro, o senegalês Assane Diop foi assassinado na zona sul de São Paulo por desentendimento com dono de bar. Segundo amigos e conhecidos do estrangeiro relatam nas redes sociais, ele era vendedor ambulante e foi cobrar o dono do bar, este não querendo pagar, resolveu atirar em Assane Diop com uma arma de fogo e fugiu.
Uma semana antes, no dia 28 de setembro, dois nigerianos e uma camaronesa sofreram agressão de seguranças do Metrô na estação República, linha Amarela, em São Paulo, por volta das 23h30. A confusão começou quando um dos funcionários quis impedir o acesso dos dois irmãos por conta de problema com o bilhete e este então acionou a segurança que logo se postou com agressões verbais e físicas. A camaronesa Judith Caielle estava passando pelo local no momento e ao tentar apaziguar foi golpeada na cabeça por um dos guardas. O caso foi para a Delegacia e os responsáveis da unidade não quiseram dar mais informações. Em razão deste ocorrido, foi realizada uma grande manifestação organizada pelo movimento panafricanista UCPA, na qual os manifestantes exigiam a demissão dos funcionários que agrediram violentamente os africanos na estação.

A sociedade brasileira, formada pelos descendentes de imigrantes e refugiados, mantém ainda fronteiras racistas que precisam ser rompidas urgentemente. Somente com essa aceitação e respeito irão compreender que imigrantes africanos também contribuem significamente para a economia do país já que em seus custos diários pagam os mesmos impostos que os próprios brasileiros. Frequentemente, vê-se em redes sociais que algum africano foi morto por algo banal, mas essa banalidade se chama racismo. Alguns cultuam em suas mentes que o africano e haitiano vêm morar no país para roubar emprego. Por exemplo, Hudson Prohete, haitiano, contou ao site Huffpost Brasil que ao chegar ao Brasil, em 2015, foi agredido com chumbinho por brasileiros que gritavam ‘Haitianos, vocês roubam nossos empregos’. Segundo o site Huffpost Brasil, em 2015, as denúncias de xenofobia cresceram 633% em relação ao ano de 2014. A plataforma Disque 100 da Secretaria Especial de Direitos Humanos registrou 330 casos.

Neste ano já foram noticiados diversos casos de homicídio e agressões contra os africanos no Brasil. Em abril, o site Ponte noticiou que um ambulante senegalês foi agredido e ofendido na linha azul do Metrô porque estava ocupando o assento preferencial. Uma pessoa não identificada mandou que ele se levantasse, mas o senegalês não conseguia compreender prontamente o idioma. Então, dois homens o abordaram com violência física dizendo para ele voltar para a África, porque aqui é Brasil.
Em julho, o vendedor ambulante FallouNdack, senegalês, foi assassinado a facadas na região Central de Cascavel, Paraná. Ele tinha 33 anos e estava no Brasil trabalhando para sustentar sua família, esposa e filhos, que moram no Senegal. Segundo testemunha relatou ao jornal Hoje News, a vítima estava descendo a Avenida Brasil, no Centro da Cidade, quando o assassino veio do nada, sacou a faca e o matou, ele foi preso em flagrante. Em depoimento, confessou crime argumentando que devia para a vítima e por ter sido cobrado o esfaqueou.
Também em julho, Jacques OnzaWilinoe, congolês, foi brutalmente assassinado sem motivo aparente na cidade de Uberlândia, no triângulo mineiro. Ele estava com sua companheira em um bar no momento do crime. A namorada disse que não sabe o motivo do homicídio e nem quem o fez, já que o assassino estava de capuz e não falou nada antes de atirar três vezes contra o congolês e fugir. A assessoria da Polícia Civil instaurou o inquérito para investigar o assassinato, mas o delegado de homicídio não comentaria sobre o caso para não prejudicar as investigações.

Os casos de homicídios, violências e agressões contra africanos vêm aumentando significativamente ao longo dos anos. O único caso que foi resolvido pela justiça é da Zulmira — uma angolana assassinada no Brás em 2012. Zulmira estava com mais alguns amigos num bar quando o assassino passou disparando contra eles e os chamando de “macacos”. Seu namorado e mais dois amigos foram também atingidos, entre eles uma gestante. Depois de muitos protestos dos movimentos sociais brasileiros e africanos, o assassino foi condenado pela Justiça.

Esses crimes acontecem no país onde se vende a imagem de “acolhedor” e que se vive diariamente uma “democracia racial”. Assim como brasileiros decidem ter uma vida melhor em outros países, isso acontece com aqueles que vêm para o Brasil a fim de dar condição melhor aos familiares que geralmente ficam nos países de origem. Ainda existem pessoas que por não poderem se expressar politicamente, religiosamente em seus países se veem na condição de proteger suas vidas em outros países. Eles deixam família, amigos, uma vida construída pelo fato de não terem o direito de expressão livre. Alguns ignoram que a maioria dos imigrantes negros e negras que chegam ao Brasil têm profissões consolidadas em seus países e aqui se submetem aos trabalhos que os próprios brasileiros negam: a construção civil é um exemplo.
A situação é de extrema urgência que se assegure aos estrangeiros africanos o direito à vida em qualquer lugar do mundo.

 

Fontes

  1. https://www.facebook.com/fluxodohelipa/posts/1190739954406330?comment_tracking=%7B%22tn%22%3A%22O%22%7D
  2. https://www.facebook.com/profile.php?id=100011379424942&lst=1324548309%3A100011379424942%3A1540500746
  3. https://noticias.r7.com/sao-paulo/imigrantes-ficam-feridos-apos-agressao-de-seguranca-do-metro-29092018?fbclid=IwAR3kqDQoRH8_EWMmE9X9bcKx04aP7Hu8pv3wTytJVgvkELgwGJgueRQ72YE
  4. https://www.huffpostbrasil.com/2016/06/20/chegada-de-refugiados-faz-xenofobia-crescer-mais-de-600-no-bras_a_21688171/
  5. https://ponte.org/senegales-teria-sido-vitima-de-racismo-e-xenofobia-apos-confusao-no-metro-de-sp/
  6. http://pontodanoticia.com/ver-noticia.php?uid=42132&fbclid=IwAR1a-DsgUltrItdC9jo5kXj1hcjEnG6O_OVbgJLuuCsY2OQsL7U0ON18XF8
  7. https://cgn.inf.br/noticia/305332/corpo-de-senegales-morto-na-av-brasil-esta-ha-uma-semana-no-iml)https://www.oparana.com.br/noticia/imigrante-senegales-e-assassinado-em-Cascavel
  8. https://diariodeuberlandia.com.br/noticia/17389/amigos-buscam-ajuda-para-custear-velorio-de-africano-assassinado?fbclid=IwAR3mPn0UR8y9vWETilzioYox5Mze0CDyJsnNg_rNnQJ9dRZDw1WL-t_pkpw